CONCEITO ARQUIVO MUSEU
Em CAM um director de uma estrutura criativa
imobilizado ao fundo do armazém, onde está precariamente instalado o seu
espólio, espera. À sua direita jovens actores jazem em caixões. À sua esquerda
personagens concluídos espalham-se como estátuas. Um todo espera. E espera. E
espera. Somos a KARNART Criação e Produção de Objectos Artísticos Associação.
A espera não nos é exclusiva, partilhamo-la com as
outras estruturas de criação artística. Estamos todos condenados à espera.
Espera por reconhecimento. De valor. De importância para o futuro do país.
Espera que o Estado honre compromissos. Espera que o Estado invista no
desenvolvimento. Investir no desenvolvimento passa por uma visão de futuro,
passa pela Arte. A construção de futuro passa pela Arte. Esperam de nós,
talvez, que na espera encontremos a morte. Mas com ela já nós contamos, e por
ela esperamos a lutar, resistir. A viver.
Somos pequeno-burgueses, alguns. Somos do povo,
todos. Somos alto burgueses, poucos. Somos de pais divorciados, de pais juntos,
de traumas, de dramas como nas tragédias gregas, de alma, de famílias
verdadeiras como as de Santareno, de valores como os dos Agonias, de identidade, de dignidade, de humanidade. Não merecemos
nem aceitamos menosprezo ou mesquinhice, roubo ou exploração, soberba ou
mentira.
E temos orgulho em nós! Vejam lá! Gostamos de nos
ver! Temos amigos. Somos vaidosos. Engraçamos com os nossos defeitos.
Escrevemos maus manifestos, irónicos, deprimentes. Não usamos os nomes dos
nossos mais velhos, mais antigos, como tapetes para subir….
Fazemos para viver, para comer, para criar, para
propagar, contagiar, infectar, por impulso, por amor, por prazer. Morreremos
mal como morreram muitos. Morreremos felizes como morrerão outros depois de
nós. Morreremos a viver. Morreremos a gritar, a sorrir, a flutuar, a sentir -
fechando o ciclo do choro do nascimento. E se não for em Portugal será no
Mundo; o mundo é grande, foi lá que nascemos. Foi lá que vingámos. Foi lá que
nos encontrámos nos provérbios “onde te vai bem a tua vida, lá é a tua terra”,
“a campo fraco lavrador forte” ou “ao velho muda-lhe a casa e o ar, e vê-lo-às
acabar”.
Lutamos porque acreditamos em projectos, nossos e
de outros. E não somos estúpidos, como alguns estúpidos nos creem ser. Burros,
talvez, como os mirandeses ou os albardeiros, cientes de os quererem silenciar.
Do Poder à Comunicação Social. Durante anos não quisemos acreditar nisso mas – ou
porque estamos mais velhos, ou porque estamos mais cansados, ou porque, como
diria Brandão, acordamos com mais fel – hoje cremos que sim. Eles estão no Governo
ou em jornais, em poleiros, eles são secretários-gerais, chefes de serviços, júris
de concursos, “críticos” de tudo, comissários de nada!
A essência do nosso estar é ser artista! A essência
do nosso ser é estar em criação! Permanente. Mesmo quando sem perspectivas,
dedicados e empenhados, a contar cêntimos para gás de aquecimento ou arranjos
de figurinos, a andar a pé. O estar deles é parasita, o ser deles é amesquinhar,
apadrinhar, retorcer, castrar, inviabilizar, tentar matar! E nós morremos;
todos morremos! Mas não morremos ainda!
Homenageando os miseráveis olhamos o futuro acarinhando
o passado, sentindo medo mas rindo alto, admirando as rugas que se nos
aprofundam, temendo não conseguir continuar mas caminhando – acreditando que é
na essência do povo que nos vemos reflectidos, na sua integridade que nos
revemos, nos encontramos e à nossa genuinidade, à nossa identidade: ao lado dos
desprotegidos, dos pobres, dos excluídos; das Joanas de Brandão, das Irinas
heroínas de género de Copi, das crias de Drakull em OPNI V…
Fazemos Teatro e fazemos Perfinst! Gostamos de
texto e fazemos Perfinst. Gostamos de actores e fazemos Perfinst. Amamos
objectos, obcecamos composição, respiramos harmonia.
Nós somos verdadeiros proletários das artes
performativas portuguesas. Nós, os KARNART, antigos e passados, presentes. Do
Estado não recebemos seiscentos mil euros, quatrocentos mil euros, ou cem a
duzentos mil euros como as estruturas da nossa geração. Não. Recebemos quarenta
mil euros, quarenta mil que às vezes se transformam em menos de trinta mil. E
fazemos. E sempre tem sido assim.
Nenhum apoio entre 1991 e 1997, apoios pontuais
entre 1998 e 2004, apoios bianuais entre 2005 e 2008, nenhum apoio em 2009,
pontual em 2010, anual em 2010, bienal entre 2011 e 2012, incógnita, claro, a
partir de 2013.
E fazemos! Mas fazemos! Mas fazemos! E fazemos!
Recuperamos espaços de onde somos expulsos passados
anos por organismos do Estado; vivemos anos mendigando espaços alheios,
escorraçados de galerias de arte, cedendo a programadores modernos e tremendo
em armazéns gelados; encontramos formas alternativas de financiamento,
proporcionamos formação, fazemos acolhimentos que se revelam mais tarde
ingratos, lançamos nomes que, quem diria – Soares? Guedes? Ramos? Cruz? – nos
vêm a ignorar ou recusar. Interessa-nos a transmissão e a partilha de saber.
Interessa-nos o património e a construção do futuro. Interessa-nos o legado que
passamos aos que, em aventura e num acto altruísta, já aqui estão, ao nosso
lado.
De tantas lutas a tantas lutas, com tantos cactos…
E um mar de batalhas ainda por travar, sem tempo para elas! E a Amazónia a
desaparecer; e a nossa linda serra da Picota, em Monchique, em risco de ser
esventrada pela ganância do minério; e as sujas praias da Ilha do Sal, em Cabo
Verde; e os animais a serem abusados em gaiolas e gavetas, na China e em
África, para consumo humano… E… e… e…
Sim… sim! Claro! Também temos sol, praias;
Monsaraz, Monsanto, Belmonte e Sintra... Temos Açores. Temos as rendas do Pico
e as noivas de Viana, os tabuleiros de Tomar e as flores de Campo Maior, sim.
Temos Serôdios, Brilhantes e Oliveiras. Melos, Rorizes e Costas, temos também Santarenos,
Herculanos, Saramagos, Peixotos e Albertos, temos Vargas, Ruas e Brancos… Música.
E História. E Arte.
Mas – Vómito! – temos Relvas, Lellos e Portas;
Bartolomeus, Moedas e Peres; Guerreiros, Assises e Policarpos… E o mais que o
dinheiro compre e o diabo carregue, temos para exportar, vender e dar!!!
Os jovens que temos não são para desperdiçar. Os
corruptos que temos são para neutralizar, responsabilizar, condenar!
Em CAM, um director de uma estrutura criativa, ao
fundo do armazém onde está precariamente instalado o seu espólio, espera. À sua
direita jovens actores jazem em caixões. À sua esquerda personagens concluídos
espalham-se como estátuas. Um todo espera. E espera. E espera. E outros esperam
de nós, talvez, que na espera encontremos a morte. E nós, enquanto esperamos, partilhamos
a espera e a morte em cena.
Estamos vivos!
E, como diria Raúl Brandão: “A vida é tecida como o
linho. Um fio de dor, um fio de ternura. Eu intrometo-lhe sempre um fio de
sonho. Foi o que me perdeu”.
Lisboa, 26 de Novembro de 2012